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domingo, 23 de janeiro de 2011

O enigma de Natascha Kampusch


Perfil


Ela vive com as marcas de um sequestro que roubou sua adolescência. Sua história ainda divide a Áustria. Quem é, e como vive, a jovem cujas memórias chegam nesta semana ao Brasil

Cecília Araújo, de Viena
Natascha Kampusch: 'Infelizmente, perdi a oportunidade de adquirir uma competência social'
Natascha Kampusch: 'Infelizmente, perdi a oportunidade de adquirir uma competência social' (Emiliano Capozoli)
No filme do diretor alemão Werner Herzog O enigma de Kaspar Hauser, um homem que passou a vida inteira acorrentado em um porão, sobrevivendo graças à comida que recebia de um homem misterioso, é um dia libertado e obrigado a se adaptar às regras da sociedade. Apesar de se mostrar bastante inteligente – aprendeu a escrever no cativeiro –, fracassa ao tentar se relacionar com pessoas. Quatro anos depois de escapar de um cativeiro que a privou de toda a adolescência, a jovem austríaca Natascha Kampusch, 22 anos, faz lembrar, de maneira tocante, a história de Kaspar Hauser. Sequestrada aos 10 anos no caminho para a escola pelo engenheiro Wolfgang Priklopil, Natasha foi submetida a todo tipo de violência física e psicológica até reunir forças para escapar de sua prisão, aos 18 anos. Sua história imediatamente ganhou o mundo - e Natascha se viu cercada de cuidados e atenção. "Mas viver entre as pessoas foi e continua sendo o meu grande desafio", disse ela ao site de VEJA, na semana passada, às vésperas do lançamento no Brasil de sua autobiografia, 3.096 Dias (Editora Record). 

É numa sala informal, no sexto andar de um prédio comercial localizado em uma rua movimentada do centro de Viena, capital austriaca, que Natascha concordou em receber a reportagem para uma entrevista. Antes disso, ela aceita passear pela redondeza: posou para fotos num parque próximo, Stadtpark, e nas calçadas em torno do escritório. Ela anda pisando firme e olhando sempre à frente. Mantém o ar sério dos conterrâneos. Para as fotos, exige a presença de uma maquiadora profissional, e pede a ela que dê atenção especial a algumas marcas na pele clara do rosto. Seus cabelos castanhos são tingidos de loiro e têm um corte reto e sem movimento. Natascha é cuidadosa mas discreta no modo de se vestir. Diz que tem pavor da beleza "tipicamente americana, em que reinam o silicone e o botox".

Na volta ao prédio de escritórios, Natascha mostra desconforto no elevador apertado. A presença de desconhecidos ainda a incomoda - e partir dos contatos superficiais para qualquer relacionamento mais significativo representa um obstáculo insuperável. Pouco depois de ganhar a liberdade, Natascha passou a morar sozinha, e não com a família. Ela diz não tem grandes amigos, e não sabe o que é ter um namorado. Passa grande parte do tempo sozinha, em casa, indo ao escritório duas vezes por semana. No trabalho, ela faz questão de ser chamada de senhorita, e nunca pelo primeiro nome, mesmo pelos profissionais que trabalham ao seu lado quase diariamente. Apesar de tentar se mostrar sorridente, é difícil arrancar dela um sorriso natural. Quando faz piadas – o que acontece com frequência, mesmo ao falar de seu sequestro –, o sorriso é leve e irônico, escondido no canto da boca.
Após a entrevista, Natascha faz um inesperado convite para um almoço. No caminho do restaurante, que fica na esquina da quadra em que está localizado o escritório, comentou baixinho: “Queria que, quando eu entrasse, todas as pessoas desaparecessem”. Ela deu sorte, não havia viva alma no local. Já passava das 14h30. Pediu ao garçom arroz frito com legumes – é vegetariana – e um suco de cranberry. Mais uma vez surpreende, com uma frase em português: “Bom jantar”. De vez em quando, arrisca curtas frases em inglês – apesar de compreender bem o idioma, falta-lhe fluência. Em uma só banda, ela resume seu gosto musical: The Beatles.

Natascha tornou-se um rosto conhecido na Áustria, a ponto de ser reconhecida nas ruas. Sua história não desperta apenas simpatia. Por ter se mostrado forte durante sua recuperação e guardado as lágrimas para si, ela não se enquadrou no estereótipo da vítima. Isso levantou desconfiança e acarretou repetidas investigações, inclusive sobre uma possível cumplicidade de Natascha durante o sequestro. A jovem ainda é questionada por outras decisões, como a de ficar com a casa que já foi seu cativeiro, além de visitá-la de tempos em tempos para participar pessoalmente de sua manutenção. “Não quero que caia nas mãos erradas e vire uma atração turística”, justifica.

Por todas as críticas, ela se sente incompreendida. Não gosta das manchetes que leu nos jornais sobre o seu caso, que apontam o sequestrador como um monstro completo. “Ninguém é totalmente bom ou mau”, diz ela. Desde que escapou, Natascha sente certa compaixão por esse homem perturbado que a maltratou por tanto tempo. Se alguns especialistas insistem em classificar essa relação bizarra como “síndrome de Estocolmo” – termo usado para descrever um fenômeno psicológico em que as vítimas simpatizam ou mesmo colaboram com os criminosos –, ela rejeita enfaticamente o rótulo. “Aproximar-se do sequestrador não é uma doença. Criar um casulo de normalidade no âmbito de um crime não é uma síndrome. É justamente o oposto. É uma estratégia de sobrevivência em uma situação sem saída”, diz. As marcas deixadas pelo sequestro muitas vezes lhe parecem impossíveis de apagar. Mas Natascha segue acreditando que no futuro algo de espetacular vai acontecer e tornar esse passado irrelevante.
Emiliano Capozoli
Brigitta Sirny, mãe de Natascha Kampusch. A garota foi raptada quando tinha 10 anos indo para escola
Brigitta Sirny, sobre o reencontro com a filha: “É como se estivéssemos conhecendo uma pessoa nova, começando a relação novamente”
Família - Pouco depois de escapar do cativeiro, Natascha decidiu morar sozinha em vez de juntar-se à família.
Em 3.096 Dias,  ela assim descreve os pais:
Mãe: "Com sua natureza enérgica e decidida, era difícil para ela demonstrar emoções (...) Assim como as lágrimas, manifestações de afeto excessivas a incomodavam. (...) Não se permitia nenhuma 'fraqueza' e não a tolerava nas outras pessoas."

Pai: "Ele me recebia de braços abertos quando eu queria carinho e fazia muitas brincadeiras comigo – quando estava acordado. Na época em que ainda morava conosco, eu o via sempre dormindo. Ele gostava de sair à noite e beber generosamente com os amigos. E era pouco afeito ao trabalho."


Durante o tempo em que Natascha esteve desaparecida, Brigitta Sirny e Ludwig Koch nunca deixaram de procurá-la. O impacto do sequestro sobre eles também foi profundo. A mãe foi acusada de envolvimento no crime e até de haver assassinado a filha. O pai, que já tinha problemas com álcool, perdeu de vez o controle de sua vida.
Em 2007, Brigitta publicou sua própria versão da tragédia: Anos desesperadores: Minha vida sem Natascha.  A obra não foi bem recebida pela filha, que a considerou precipitada - embora ela diga entender a urgência da mãe em falar.
Aos poucos, as duas ensaiam uma aproximação. “É como se estivéssemos conhecendo uma pessoa nova, começando a relação novamente”, disse Brigitta ao site de VEJA. O maior empecilho é o assunto DO cativeiro. Embora queira saber como era a vida da filha ao lado do sequestrador, Brigitta acha muito doloroso ouvir a respeito. Não passou das 40 primeiras páginas do livro de Natascha. “É mais do que posso aguentar. Talvez termine de ler um dia, mas terei que me sentir muito forte para isso”, afirma. Para Brigitta, ainda vai demorar pelo menos o mesmo período de tempo em que Natascha ficou presa para que a relação entre elas se torne mais natural. Mas é certo que já conquistaram alguns avanços. “Já acontecem algumas situações típicas do relacionamento entre mãe e filha. Quando ligo todos os dias, Natascha reclama. Quando não ligo algum dia, ela pergunta por que não liguei. É um bom sinal”, diz ela.
A relação de Natascha com o pai atualmente é quase nula. Brigitta acredita que o principal motivo seja ele ter começado a chamar jornalistas para as festas de família e encontros com Natascha, em troca de dinheiro. Chistoph Feurstein, jornalista da emissora ORF, a TV pública de Viena, acompanhou o caso desde o início e conta um episódio que ilustra a forma equivocado com que Koch tem lidado com a “fama” de sua filha. Quando Feurstein ganhou um prêmio de jornalismo por ter feito a primeira entrevista com Natascha depois de sua fuga, a convidou para o evento de entrega para que ela pudesse recebê-lo ao seu lado. Natascha queria ir, mas era aniversário de Koch e ele reclamou da sua ausência. Então, decidiu prestigiar o pai. Mas ao chegar na festa, descobriu que ele havia chamado fotógrafos e repórteres para o que deveria ser uma reunião familiar. “Seria injusto dizer que Koch não procurou pela filha a cada dia. Ele dizia que se mataria sem ‘sua princesa’. Depois que ela escapou, porém, ele achou que teria sua filha criança de volta, como se estivesse em um conto de fadas", diz Feurstein.

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